A dose fracionada para controle da febre amarela é eficaz e necessária para impedir a epidemia em grandes centros urbanos do Brasil, segundo opinião de especialistas

A imprensa brasileira tem noticiado amplamente nas últimas semanas, a necessidade de vacinar as populações de vários municípios dos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia para evitar o risco de epidemia de febre amarela em áreas urbanas. Recentemente, a Organização Mundial de Saúde incluiu todo o estado de São Paulo na área de risco de febre amarela. E está recomendando aos viajantes internacionais que tomem a vacina dez dias antes de viajar para o Brasil. O Ministério da Saúde, no dia 9 de janeiro, autorizou o fracionamento da vacina como forma de alcançar um número maior de pessoas. Todos os casos de febre amarela confirmados no Brasil são do tipo silvestre, mas existe o risco do ciclo se tornar urbano e a doença se espalhar pelas cidades.

Numa iniciativa para contribuir com o debate em relação à situação epidemiológica da febre amarela e as formas de prevenir o risco de epidemia em grandes centros urbanos no Brasil, a diretoria do Instituto de Medicina Social conversou com José Cássio de Moraes, médico e professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, e Pedro Luiz Tauil, médico e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília. As medidas propostas pelo Ministério da Saúde sobre como enfrentar o problema têm levantado grande debate tanto no meio acadêmico quanto no público em geral. “Entendemos que o momento exige mais esclarecimentos”, ressaltou Gulnar Azevedo, diretora do IMS.

De acordo com José Cássio de Moraes (FCMSC-SP), a vacina da febre amarela produzida no Brasil pela BioManguinhos tem uma concentração várias vezes superior à recomendada pela OMS. Nesse sentido, mesmo com o fracionamento a quantidade por dose é superior ao recomendado. “Há 9 anos atrás um grupo de recrutas recebeu a dose fracionada e a resposta até o primeiro ano depois da aplicação da vacina fracionada em termos de anticorpos foi semelhante à dose normal. O estudo foi feito por BioManguinhos. No ano passado uma parte destes participantes foram reavaliados e eles mantinham títulos protetores para febre amarela. A dose fracionada controlou um surto de febre amarela em Angola e na República Democrática do Congo. A diluição da vacina e sua enfrascagem com dose reduzida implica em custos elevados e seria considerada pela Anvisa uma nova vacina necessitando uma nova licença”, explica.

José Cássio de Moraes relata que as epizootias e casos humanos se espalharam por toda a Região Sudeste em 2017 e continuam em 2018. Vários municípios da região metropolitana de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte relataram casos humanos com uma letalidade alta como é característica da doença. Segundo o pesquisador, a garantia com a dose fracionada, até agora e da duração da imunidade é de 9 anos, mas ela pode ser em maior dependendo do acompanhamento dos recrutas. “A produção mundial da vacina é limitada e poucos laboratórios a produzem. A vacinação de rotina em crianças continua sendo feita com dose integral. Estamos numa situação epidemiológica de emergência e a vacinação e outras medidas de controle visam impedir a reurbanização da febre amarela”, pontuou.

Pedro Luiz Tauil (FM-UnB) disse que a febre amarela apresenta uma sazonalidade caracterizada pelo aumento da incidência no período de dezembro a junho. Desde dezembro de 2017, tem se registrado novamente casos de febre amarela, incluindo óbitos, e ainda a morte de macacos, infectados pela doença, em áreas florestais muito próximas ou até mesmo dentro de áreas urbanas, como ocorreu em parques florestais da cidade de São Paulo, levando à sua interdição para pessoas não vacinadas. Pedro Tauil acredita que atingindo áreas metropolitanas densamente povoadas, o controle da doença passa a exigir a vacinação de populações, antes não objeto dessa ação. “Isso leva a um novo e grave problema que é a escassez de vacina contra febre amarela no mundo”, revela.

O Brasil é o maior produtor mundial da vacina, por meio da Fundação Oswaldo Cruz. O Ministério da Saúde do Brasil prevê que, para a proteção da população de municípios de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia, serão necessários 20 milhões de doses, tanto para evitar a incidência por transmissão silvestre, como para prevenção da ocorrência de reurbanização da transmissão. Assim, foi proposto o fracionamento das doses de vacina de 0,5 ml para 0,1 ml, multiplicando por 4 a 5 vezes o número de pessoas vacinadas. “Este fracionamento já tem evidências científicas de sua eficácia. Porém, ainda não se sabe a duração exata da imunidade conferida pela vacina fracionada”, ressaltou Tauil.

Segundo Pedro Tauil, outra medida, também preconizada pela Organização Mundial da Saúde e recentemente adotada pelo Ministério da Saúde, é que, diante da escassez de vacina no mundo e evidências de imunidade duradoura provocada por uma única dose da vacina, uma dose de reforço a cada 10 anos, antes preconizada, seria desnecessária. Assim, pragmaticamente, pelo menos mais pessoas tomariam pelo menos uma dose da vacina. “Esta medida não é consensual e alguns pesquisadores ainda defendem que um reforço a cada 10 anos deveria ser mantido para pessoas altamente expostas ao risco de adoecer, quer em laboratórios, lidando com o vírus, quer vivendo em, ou visitando áreas de alta endemicidade”, finalizou.

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Confira mais informações sobre a situação atual do surto de Febre Amarela no Brasil nos sites do Ministério da Saúde (http://portalms.saude.gov.br/saude-de-a-z/febre-amarela/situacao-epidemiologica-dados) e da FIOCRUZ (https://portal.fiocruz.br/pt-br/content/febre-amarela-dose-reduzida-da-vacina-imuniza-por-oito-anos).

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