Maternidade, gênero e ciência: reflexões e tensionamentos

Análise: Marina Fisher Nucci e Jane Araujo Russo*
Revisão: Ana Silvia Gesteira

Os estudos sobre gênero e ciência constituem um campo de reflexão tradicional e bastante consolidado, que surge a partir de um paralelo entre os estudos de gênero e os estudos sociais da ciência, uma vez que ambos partem da desconstrução da ideia de natureza: assim como o gênero não seria mero “espelho” do sexo, a ciência não espelharia a natureza. De maneira geral, os estudos de gênero e ciência podem ser divididos em duas correntes. A primeira se ocupa em analisar as desigualdades de gênero, e a presença ou ausência de mulheres na prática científica, chamando atenção para sua exclusão histórica. Uma segunda corrente, de modo complementar, procura investigar o conhecimento científico em si, isto é, o modo através do qual ele é construído, tendo como ponto de partida a crítica à neutralidade e objetividade científica (CITELI, 2001; CAMARGO JR; ROHDEN; CACERES, 2009; NUCCI, 2018). Neste trabalho, partimos desse campo de estudos para refletir sobre um aspecto específico: a relação entre maternidade e ciência.

Londa Schiebinger (2001), em “O feminismo mudou a ciência?”, observa como os arranjos domésticos são parte constituinte da “cultura” ou do “campo” da ciência. Neste sentido, o conflito ou a dificuldade em se conciliar carreira científica e maternidade não devem ser pensados como um assunto privado. Para ela: “O ‘campo de jogo’ da ciência nunca será nivelado enquanto o cuidado com as crianças e a administração doméstica continuarem a ser considerados uma responsabilidade da mulher” (SCHIEBINGER, 2001, p. 195).

Têm surgido diferentes mobilizações que procuram dar visibilidade a esta questão. Dentre elas, podemos destacar o Projeto Parent in Science, que realizou, em maio de 2018, em Porto Alegre, o “1º Simpósio Brasileiro sobre Maternidade e Ciência”. O evento teve a presença de muitas mulheres, a maioria mães, e contou com espaço de recreação para crianças. A partir do Simpósio, foi lançado o movimento “Maternidade no Lattes”, com o objetivo de chamar atenção para o impacto da maternidade na carreira das mulheres, fazendo com que agências de fomento e instituições de pesquisa considerem a maternidade como parte da carreira das cientistas.

Assim, procuramos aqui explorar os ideais de maternidade e de ciência que permeiam o Projeto Parent in Science, utilizando como material privilegiado de discussão do 1º Simpósio (a partir da transmissão das palestras e debates, disponível online). Nosso objetivo não é uma análise do Parent in Science em si, mas sim provocar uma discussão utilizando-o como um caso. Interessa-nos analisar criticamente os ideais em torno da parentalidade e do papel da “boa mãe” que, no Simpósio do Parent in Science, se evidenciou especialmente a partir de uma palestra – e seu debate subsequente – sobre cuidado parental e desenvolvimento cerebral de roedores.

O “1º Simpósio sobre Maternidade e Ciência” contou com dois dias de programação e dez palestras e mesas-redondas. A palestra de abertura foi proferida por Fernanda Staniscuaski, professora da Biologia da UFRGS, criadora do projeto.

Fernanda inicia sua fala contando sobre como o Parent in Science foi criado. Mãe de dois filhos e grávida do terceiro na ocasião, conta que optou por exercer, em suas palavras, uma “maternidade com dedicação exclusiva”. Como o marido também é professor universitário, passados os seis meses de licença-maternidade, os dois se dividiram no cuidado com os filhos e se revezaram enquanto cada um precisava sair para dar aula. Com isso, Fernanda manteve as atividades docentes, mas, em suas palavras, deixou o laboratório em segundo plano, o que fez com que sua produção científica caísse. Como consequência, teve pedidos de bolsa e editais indeferidos, por não ter publicado nada no primeiro ano de vida dos filhos. Esse “buraco no Lattes”, como Fernanda diz, “não poderia ser completado com a certidão de nascimento das crianças”. Fernanda relata, então, ter buscado literatura sobre o assunto e não ter encontrado nenhum estudo sobre maternidade e ciência no Brasil, nem tampouco dados do CNPq sobre isso. Por conta disso, ela se organizou com pesquisadores na mesma situação (alguns homens, mas na maioria mulheres) e criou o Parent in Science.

A palestra de Fernanda é seguida por um debate com bastante participação da plateia. As colocações são marcadas por relatos pessoais de professoras que foram descredenciadas da pós e/ou perderam suas bolsas de produtividade no retorno da licença-maternidade, e também de estudantes e pesquisadoras de diversos níveis de formação, contando suas experiências.

Mas foi a palestra “Importância do cuidado parental no início da vida para o desenvolvimento da aprendizagem e memória: evidências de estudos com modelos experimentais”, proferida por Pâmela Mello-Carpes, da Unipampa, que mais levantou a discussão sobre os ideais acerca de maternidade, como veremos a seguir. Nela, Pâmela apresentou pesquisas de modelo experimental, desenvolvidas com roedores, para mostrar como o cuidado no início da vida impacta o desenvolvimento da aprendizagem e da memória. Segundo ela, tais pesquisas apresentam evidências de que o cuidado pode interferir no desenvolvimento do cérebro, trazendo repercussões para a vida toda.

A noção de que o desenvolvimento da criança é reflexo direto dos cuidados no primeiro ano de vida já havia sido mencionada na mesa de abertura por Fernanda Staniscuaski. Como ela colocou, estudos sobre o desenvolvimento dos primeiros anos de vida das crianças apontariam para a necessidade de licenças-maternidade e parentais maiores, para que as famílias pudessem se dedicar mais ao cuidado dos filhos durante esse período.

Na palestra de Pâmela, como é frequente em pesquisas de modelo experimental, é apresentada a ideia de continuidade entre o comportamento dos animais estudados e o comportamento humano, embora o último seja descrito como mais complexo, uma vez que se relaciona a “fatores sociais e culturais”. Essa maior complexidade humana era ressaltada em vários momentos por Pâmela. A principal diferença pontuada é que naquela espécie de animais estudada, a única responsável pelo cuidado dos filhotes é a fêmea. Já em seres humanos não se deve falar só da mãe, mas sim dos “adultos cuidadores”. Em suas palavras: “Isso não é função única e exclusiva da mãe”, “o pai precisa assumir um papel também de responsabilidade”.

A pesquisa apresentada por Pâmela foi realizada retirando-se a rata mãe três horas por dia nos primeiros dez dias de vida dos filhotes, que não receberam nenhum tipo de cuidado durante este período, exceto pelo leite materno oferecido pelos pesquisadores. Os resultados mostraram que esse período de privação gerou um déficit de aprendizagem que persistiu na vida adulta. Extrapolando o resultado para seres humanos, Pâmela comenta: “A forma como a gente interage com os nossos filhos, principalmente nesses primeiros anos de vida, vai lapidar o cérebro dele, ou pelo menos dar indicativos de por onde ele vai se desenvolver.”

Para Pâmela, a mãe se dedicar aos cuidados com os filhos ocorreria de forma mais natural e instintiva. Segundo ela:

Dentro das neurociências a gente sabe que o cérebro da mãe se modifica quando ela tem filhos. Isso acontece muito cedo, porque ela já está há nove meses com o filho. O pai, o primeiro contato físico vai ser quando a criança nascer. […] Se quando a criança nascer o pai começar a ter essa ação de cuidado, o cérebro dele também muda. Mas diferente da mãe, que a mudança é quase que instintiva, o pai precisa ter essa atividade de querer cuidar, para poder ter essas mudanças no circuito afetivo do cuidado. (Pâmela).

A ênfase da palestrante aos “fatores sociais” e à necessidade de se partilhar os cuidados dos filhos entre mães e pais rendeu algumas reações da plateia durante o debate. Podemos destacar a fala de uma neurocientista que declara ter ficado “incomodada” ao longo da palestra. Sua crítica é que fatores neurobiológicos teriam sido minimizados ou mesmo negados durante a palestra, e esses fatores estariam no cerne do abandono das mães à carreira científica. Como ela explica:

Assim, tu meio que tem que deixar de lado essa questão instintiva se tu quiser continuar sendo uma boa profissional. Só que esse vínculo, essa mudança encefálica, não é só cultural. […] a sensação que eu tive depois das minhas duas gestações é que meu cérebro era papinha. Eu não conseguia ter memória, não conseguia articular ideias, esquecia palavras. […] Isso tem uma função biológica, que é de colocar o foco ali. […] Então, assim, eu acho que um pouco da nossa luta é o direito de mulheres que querem ser mães de poderem ser mães de verdade, exercendo a maternidade de uma forma que respeite sua biologia […]. (plateia1).

Pâmela responde à colocação dizendo que concorda com alguns pontos, mas rebate perguntando o que seria “uma mãe de verdade” e “uma boa mãe”. Outra pessoa na plateia concorda com a primeira colocação:

Eu percebo que tem um julgamento hoje em quem decide ser mãe nesse sentido de completude. Não é no sentido de ser boa mãe, mas é de seguir seu instinto. Não é: “ah, você está sendo mãe porque é uma questão socialmente construída”. Não, tem um monte de questões hormonais que estão me levando a esse comportamento. E eu gosto, e ele me dá prazer. Só que, assim, eu vou ter que abrir mão porque senão eu não vou ter carreira, e porque as pessoas julgam. (plateia2).

Nas perspectivas trazidas pelas colocações da plateia, a noção de instinto materno parece estar na base do que constituiria uma “boa mãe”, ou uma “mãe de verdade”. Assim, embora a palestrante tenha chamado muita atenção para aspectos sociais e culturais em torno da criação de filhos, e tenha se posicionado contrária à ideia de que haveria uma forma mais “correta” de se “maternar”, o debate trouxe à tona noções de maternidade bastante tradicionais, calcadas em um suposto instinto materno, que se materializaria no cérebro e na atuação dos hormônios. Essa suposição, calcada em uma transformação cerebral e hormonal produzida pela gravidez (o fato de a futura mãe carregar a criança dentro de si) entra em contradição com as observações feitas pela palestrante sobre a necessidade de o pai dividir as tarefas maternas. Ora, se as transformações corporais responsáveis pelo vínculo especial com a criança ocorrem na mulher, a impressão que se tem é que a “função materna” tem precedência sobre a paterna.

É preciso observar que o cérebro não aparece por acaso nessa discussão. De objeto científico e médico, ele é “promovido” a um ator social, e se torna um personagem da imaginação contemporânea, passando a ser utilizado cada vez mais para descrever e compreender comportamentos sociais (EHRENBERG, 2004). Com isso, o cérebro vem ocupando uma posição hierarquicamente superior não apenas aos outros órgãos do corpo humano, mas superior também à noção de mente e ao próprio corpo, sendo central no processo de descrição da subjetividade em termos corporais (ORTEGA, 2008; AZIZE, 2010). Combinados aos hormônios, tais discursos acerca do cérebro procuram, muitas vezes, “materializar” ou “substancializar” supostas diferenças biológicas entre homens e mulheres (ROHDEN, 2010; NUCCI, 2015).

Cordelia Fine (2010) é uma autora que critica o que cunhou de “neurossexismos”, isto é, estereótipos de gênero que permeiam a produção da área das neurociências voltada para a investigação de supostas diferenças cerebrais entre homens e mulheres. De acordo com Fine, o neurossexismo ao mesmo tempo reflete e reforça crenças culturais, adicionando uma “aura” de cientificidade a velhos estereótipos sobre a masculinidade e feminilidade. Em seu bem-humorado artigo “Irá o cérebro das mães trabalhadoras explodir?”, Fine (2008) analisa a obra de Louann Brizendine, neuropsiquiatra estadunidense que publicou o livro que no Brasil recebeu o título de Como as mulheres pensam. O livro de Brizendine defende a ideia de que o cérebro feminino é fundamentalmente diferente do cérebro masculino, devido a fatores biológicos inatos. Por conta dessa diferença, mulheres possuem habilidades específicas, mas também enfrentam desafios específicos. Deste modo, o “sucesso” profissional feminino em determinadas áreas seria muito mais difícil de ser alcançado do que o “sucesso” masculino, já que a mulher precisaria sempre lutar para equilibrar sua vida profissional com suas “necessidades femininas”, como relacionamentos e o cuidado com os filhos.

Além disso, para Brizendine, combinar maternidade e carreira “sobrecarregaria” os circuitos cerebrais femininos, levando a uma espécie de “cabo-de-guerra neurológico”. Essa sobrecarga, por sua vez, reduziria a “energia cerebral” feminina, tanto no trabalho, como no cuidado dos filhos. Porém, é justamente a compreensão dessa configuração cerebral inata que possibilitaria à mulher se organizar melhor. Como ironiza Fine, portanto, não são as políticas favoráveis à família nos locais de trabalho, a existência de leis que apoiem mães trabalhadoras, e nem mesmo o compartilhamento dos cuidados dos filhos com os pais, que ajudariam a reduzir o estresse materno e evitar a “sobrecarga cerebral”, mas, sim, a existência de livros como o de Brizendine, capazes de “informar” e “ajudar” as mulheres. A mensagem final é que mulheres podem fazer qualquer coisa que queiram, mas devido aos seus “cérebros femininos”, isso demandará muito trabalho, podendo, inclusive, prejudicar sua saúde. O objetivo do livro, portanto, seria fornecer informações de que mulheres precisariam a fim de “tirar o máximo” de seus “cérebros femininos”.

A análise de Fine do livro de Brizendine e de discursos sobre o cérebro e sua “sedutora cientificidade” nos ajudam a pensar sobre como cérebro e hormônios aparecem no debate do Simpósio organizado pela Parent in Science – seja o cérebro dos bebês em seus primeiros anos de vida, seja o das mães, que viraram “papinha” com o nascimento dos filhos. Embora a palestrante tenha chamado atenção repetidas vezes para os “aspectos sociais” a serem levados em conta ao falarmos de seres humanos, os “aspectos cerebrais” chamam atenção, e as colocações da plateia parecem caminhar em direção a uma tentativa de “substancialização” ou “materialização” da maternidade. Importante fazer duas observações sobre essa “materialização”. Primeiramente, o fato de estarmos, em nossos exemplos, lidando com cientistas dedicadas às “ciências da natureza”. Apesar do reconhecimento dos fatores sociais e culturais, a natureza, parece-nos, tem precedência explicativa. Tal precedência leva à necessidade de calcar a dedicação full time ao filho pequeno não numa vontade da mulher ou em exigências culturais, mas numa imposição biológica/instintiva inescapável (e certamente universal). Só assim é possível legitimar tal dedicação, e exigir para ela um estatuto propriamente científico e, neste sentido, passível de inscrição no Lattes.

Para concluir, é preciso destacar o esforço do Parent in Science em levantar a discussão, pressionar instituições e agências de fomento e trazer mudanças concretas que visam diminuir as desigualdades na ciência. Os debates levantados no “1º Simpósio Brasileiro sobre Maternidade e Ciência”, organizado pelo grupo – apresentam importantes questões sobre ideais em torno da maternidade e sobre diferentes perspectivas em torno da prática científica. Cabe, por fim, nos inspirarmos na perspectiva da crítica feminista à ciência, em especial, a crítica à neutralidade e objetividade científica, para nos ajudar a pensar em uma ciência situada que tome posição no debate sobre gênero, maternidade e ciência.

Referências

AZIZE, R. L. A nova ordem cerebral: a concepção de “pessoa” na difusão neurocientífica. Tese (Doutorado em Antropologia) – Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2010.

CAMARGO JR., K. R.; ROHDEN, F.; CACERES, C. Ciência, gênero e sexualidade. In: SEMINÁRIO DIÁLOGO LATINO-AMERICANO SOBRE SEXUALIDADE E GEOPOLÍTICA. Rio de Janeiro, 2009.

CITELI, M. T. Fazendo diferenças: teorias sobre gênero, corpo e comportamento. Revista Estudos Feministas, v. 9, n. 1, p. 131-145, 2001.

EHRENBERG, A. Le sujet cerebral. Esprit, n. 309, p. 130-155, nov. 2004.

FINE, C. Will working mother’s brain explode? The popular new genre of neurosexism. Neuroethics, n. 1, p. 69-72, 2008.

______. Delusions of gender: the real science behind sex differences. London: Icon Books, 2010.

NUCCI, M. Crítica feminista à ciência: das “feministas biólogas” ao caso das “neurofeministas”. Revista Estudos Feministas, v. 26, n. 11, e41089, 2018.

______. “Não chore, pesquise!”: reflexões sobre sexo, gênero e ciências a partir do neurofeminismo. Tese (Doutorado em Saúde Coletiva) – Instituto de Medicina Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2015.

ORTEGA, F. G. O sujeito cerebral e o movimento da neurodiversidade. Mana, v. 14, n. 2, p. 477-509, 2008.

ROHDEN, F. O que se vê no cérebro: a pequena diferença entre os gêneros? In: MALUF, S.; TORNQUIST, C. (Orgs.). Gênero, saúde e aflição: abordagens antropológicas. Florianópolis: Letras Contemporâneas, v. 1, 2010, p. 403-439.

SCHIEBINGER, L. O feminismo mudou a ciência? Bauru: EDUSC, 2001

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* Pós-doutoranda – Ciências Humanas e Saúde / PPGSC-IMS e Professora Titular – Ciências Humanas e Saúde / PPGSC-IMS-UERJ

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